julho 29, 2005na periferia da terra
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os gritos. sempre os gritos como engodo. todos querem para si o fluxo da violência, todos eles anseiam à vez pegar nas rédeas do caos e disseminar o pó da raiva no dorso dos homens que estão de mãos vazias e que se encolhem à passagem do bafo quente e muscular do sangue em explosão. qual a terra de onde foram expulsos? qual o peso das pedras que cada um deles traz agrilhoada a uma das pernas? quais os nomes dos rios a que estão destinadas todas aquelas pedras? a correria. os rostos liquefeitos. a carne a descolar dos ossos. que amor terão todos eles abandonado para assim morrerem por nada? .....................................
julho 10, 2005as flores de harrison
para ver a imagem com maior resolução é favor clicar na própria era já madrugada. as flores lá fora destas paredes, cujo perfume está ainda adormecido no frio da pálida claridade, iniciavam o processo da recolha da poeira aquosa sobre as suas folhas para depois se formarem gotas e aí verterem o sonho da mobilidade que não possuem, a não ser o vento que as embalem ou então uma mão que lhes corte das raízes que as prendem à terra para morrerem depois livres. cá dentro, ainda é de madrugada. existe o vestígio, o odor vegetal da morte em sacos plásticos transparentes. se alguém ali morresse, as flores decepadas assegurariam um funeral instantâneo e sem as ridículas coroas a que são submetidas, numa tortura de embelezamento. a beleza de quem não faz perguntas, assegura-me a paz. ali, perante aquele olhar desinteressado, o odor das flores mortas mas cujas cores ainda maquilham os corpos embalsamados, torna-se mais intenso até que nos meus pulmões sinto a raiz da doença a crescer e a rebentar com a minha respiração. todos temos em nós, desde a primeira célula, a semente da morte inseminada pela haste pontiaguda de um orgasmo que nos faz nascer sem direito a escolha. e é mais tarde, sempre em momentos desassociados ao que estamos a fazer, que a semente germina e as suas raízes começam a crescer até conseguirem envolver todas as funções vitais do nosso corpo. todo este crescimento pode durar anos, ou ser breve. tudo depende da terra que até então conseguimos ter engolido. .....................................
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