janeiro 25, 2004


sem legendas #04


festa de S. Gonçalo, Aveiro 2004
dupla exposição em filme HP5+ 400 de 120
© direitos reservados ao autor nelson d'aires


não conseguimos reter todas as pessoas enclausuradas no nosso corpo. de tempos em tempos envelhecemos e com esse acto violento a fadiga. o cansaço trespassa-nos o corpo que é matéria em decomposição. agarramo-nos às memórias como a carne se agarra aos ossos, sustentando-nos. não conseguimos reter todas as pessoas enclausuradas no nosso corpo. há quem queira morrer, e essa vontade tem de ser respeitada.

.....................................


janeiro 20, 2004


sem legendas #03


festa de S. Gonçalo, Aveiro 2004
dupla exposição em filme HP5+ 400 de 120
© direitos reservados ao autor nelson d'aires


há vidas que se cruzam, há distâncias que sobrepostas umas em cima das outras anulam o tempo. a fotografia é uma distância que não se afasta, está-nos sempre presente.

.....................................


janeiro 13, 2004


cais


Trafaria, 2003

todas as cidades possuem um cais de desembarque. os barcos ficam desertos, os passageiros e marinheiros sequiosos por terra firme descem as rampas, embrenham-se pelas ruas labirínticas de um emaranhado de rotas que nas cidades colidem e escavam becos sucessivos.

horas, dias, semanas, meses, inclusive anos após o desembarque os marinheiros continuam com o mar a naufragarem-lhes a pele. é no trôpego dessa náusea terrestre que os marinheiros procuram, agora, o cais de embarque.

procuram encerrados pela neblina da digestão fóssil dos motores em carburação, não conseguem descobrir que o cais de embarque está em constante deslocação, encontrá-lo é um privilégio idêntico ao da morte.

foto e texto| © direitos reservados ao autor nelson d'aires

.....................................


janeiro 08, 2004


manhãs, o que me são. #12

barba na cara, assisto diariamente à partida reflectida da minha juventude. pego na lâmina de barbear e deslizo-a sobre o rosto como quem limpa a condensação sobre um espelho para o tornar límpido e poder reconhecer-me.

.....................................


janeiro 05, 2004


tráfego


Coimbra, 2003

no início e final de cada ano a excitação de que amanhã será um dia melhor faz com que o caudal das ruas transborde de emoção. é enigmático como a cidade apenas reconhece as extremidades das suas ruas, ignorando os restantes dias que lhe fazem o caminho. os dias intermédios acabam por serem preenchidos pela tensão do tráfego que se acumula devido a toda a gente querer saltar de uma extremidade para a outra, tudo ao mesmo tempo.

foto e texto| © direitos reservados ao autor nelson d'aires

.....................................